
Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), no Brasil, descobriram uma nova estratégia que pode proteger neurônios e outras células cerebrais envolvidas na doença de Parkinson no futuro. Os resultados do estudo, realizado em ratos, foram publicados na revista Neurofarmacologia.
O estudo, apoiado pela FAPESP, avaliou o efeito de um peptídeo (Ac2-26) – fragmento de uma proteína (Anexina A1) – na doença. Esta proteína é produzida naturalmente em roedores e humanos, e estudos anteriores em animais demonstraram que a molécula controla a neuroinflamação associada à doença de Parkinson e reduz a degeneração neuronal.
A doença de Parkinson está intimamente ligada aos neurônios que sintetizam e liberam dopamina, um neurotransmissor essencial para funções motoras, motivação, recompensa e prazer. À medida que esses neurônios degeneram e morrem devido à doença, o corpo perde a capacidade de sintetizar dopamina. Sem esta substância, os pacientes apresentam deficiências como congelamento da marcha (dificuldade para caminhar) e tremores.
“Ainda é um estudo experimental em fase inicial, mas oferece uma abordagem interessante ao apresentar uma estratégia diferente do tratamento convencional. O peptídeo atua na neuroinflamação e não na reposição de dopamina. Isso é importante porque, nas doenças neurodegenerativas, há uma reação inflamatória que afeta não apenas os neurônios, mas também as células vizinhas, e o peptídeo atenua esse processo, protegendo, consequentemente, o cérebro da morte celular”, diz Cristiane Damas Gil, chefe do Departamento de Morfologia e Genética da Universidade de São Paulo. Faculdade de Medicina (EPM) da UNIFESP e autora do estudo.
Atualmente não há cura para a doença de Parkinson. O tratamento se concentra principalmente no controle dos sintomas motores resultantes da deficiência de dopamina. A abordagem terapêutica baseia-se, portanto, na utilização da levodopa, um precursor da dopamina que atua especificamente nos neurônios dopaminérgicos.
“Esse medicamento é considerado padrão ouro, oferecendo benefícios significativos, principalmente nas fases iniciais ou durante o tratamento agudo, quando leva à melhora acentuada dos sintomas motores. Porém, o uso prolongado diminui sua eficácia e pode levar ao desenvolvimento de complicações motoras e flutuações na resposta terapêutica. Por isso é fundamental buscar alternativas de tratamento para uma doença tão complexa como o Parkinson”, explica Luiz Philipe de Souza Ferreira, bolsista da FAPESP que conduziu a pesquisa.
O peptídeo Ac2-26 é um conhecido anti-inflamatório agente que foi testado para outras doenças, embora ainda não tenha sido desenvolvido como medicamento. Além disso, estudos indicam que a anexina A1 está alterada na doença de Parkinson e está associada a alterações cerebrais inflamação e os neurônios dopaminérgicos envolvidos no controle do movimento.
Machos e fêmeas
Para simular a doença de Parkinson, os pesquisadores injetaram uma droga neurotóxica no cérebro dos animais, induzindo a morte neuronal e sintomas típicos da doença. Quase simultaneamente com a injeção intracerebral, os pesquisadores administraram o peptídeo por via intraperitoneal (no abdômen).
O estudo também mostrou diferenças na proteção e na progressão da doença entre camundongos machos e fêmeas. Após a lesão que simulou a doença de Parkinson, os pesquisadores observaram que inicialmente as mulheres tiveram melhor desempenho nos testes de movimento, mas essa diferença desapareceu com o tempo. “Essa maior resiliência esteve presente mesmo na ausência da proteína Anexina A1”, diz Gil.
Os experimentos foram conduzidos em animais com a proteína e em animais geneticamente modificados sem ela.
“Nos homens, porém, a perda de neurônios foi mais evidente, o que permitiu avaliar com clareza os efeitos do tratamento com o peptídeo Ac2-26, que é capaz de proteger contra a degeneração”, diz Ferreira.
Os experimentos também revelaram que a indução da doença altera profundamente o ciclo reprodutivo das mulheres, destacando como o Parkinson afeta o sistema endócrino. “Isso reforça a necessidade de protocolos específicos para cada sexo biológico”, enfatiza Ferreira.
O presente estudo mostrou que o peptídeo atua de forma preventiva, intervindo no início dos danos. “Nosso próximo passo é investigar se o peptídeo pode reverter os danos causados pela doença de Parkinson. Se isso for comprovado, o peptídeo se tornará um candidato de tratamento mais promissor”, conclui Gil.
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